Juara (MT), 20 de novembro de 2017 - 11:11

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21/10/2017 08:18 RD NEWS

Dois governadores são assassinados ao longo da história de Mato Grosso

Ao longo de sua história, Mato Grosso teve dois presidentes de província/governadores (João Poupino Caldas, em 1834, e Antônio Paes de Barros, o Totó Paes, em 1906) assassinados a tiro no exercício do cargo. Esses dois homicídios se deram no contexto de conflitos históricos, o mais conhecido deles, a Rusga, cujos desdobramentos vitimaram ambos, mesmo com uma distância de 72 anos entre um acontecimento e outro.
governadores mortos arquivo publico

Notícias sobre a morte dos governadores são escassos desde incêndio no Arquivo Público

Confrontos que sempre agitaram a vida política da capitania, posterior província e Estado e as razões alegadas tanto por brasileiros quanto portugueses para essas divergências eram várias. Começavam com o ressentimento aos antigos colonizadores (a independência fora declarada a apenas 12 anos, quando da Rusga), mas envolviam também, no mais das vezes, disputas de poder e prestígio público entre as elites da época.

São histórias escritas com tintas dramáticas e requintes de surrealismo, como a utilização de uma bala de prata (reservada àqueles tempos aos traidores) e composição de trovas populares depreciativas para serem cantadas nas ruas (caso da morte de João Poupino Caldas) e com devida difamação e linchamento público de honra (como aconteceu com Totó Paes).

As duas histórias foram esmiuçadas no mais recente livro do historiador e ex-secretário de Cultura do Estado, João Carlos Vicente Ferreira, Mato Grosso -- Unidades Municipalistas, Sociedade e Desenvolvimento, ainda não editado, mas pronto para ser lançado, de acordo com o autor.

Na execução mais recente da figura máxima do executivo do Estado, corria o dia 7 de julho de 1906 quando, na Fábrica de Pólvora, região do Coxipó do Ouro, quando foi assassinado o presidente de Mato Grosso, coronel Antônio Paes de Barros, o Totó Paes, fundador e proprietário da Usina de Açúcar Itaicy. Totó estava refugiado de Cuiabá desde a última semana daquele junho de 101 anos atrás quando tropas de oposição a seu governo, lideradas pelo senador Generoso Paes Leme de Souza, invadiram a Capital.

As forças revolucionárias que o executaram foram comandadas pelo Coronel Joaquim Sulpício de Cerqueira Caldas, também conhecido por Quinco Caldas. O corpo foi encontrado por um tenente do Exército. No mesmo dia, na Praça do Arsenal de Guerra (hoje Sesc Arsenal), o senador Generoso Ponce realizou o que foi batizado como parada da vitória. Centenas estiveram presentes, saudando o ocorrido.

Com a morte de Totó Paes, assume a administração de Mato Grosso o 1º vice-presidente Pedro Leito Osório, com apoio de Generoso Ponce. A morte de Totó Paes colocava fim a uma das disputas mais ferrenhas já vistas na história política da Capital. O episódio era comentado pela população como a Revolução de 1906.

Gilberto Leite

governadores mortos arquivo publico

Documentos sofrem ação do tempo. Espaço a preservá-los não é o mais adequado

Totó Paes estava na presidência de Mato Grosso desde 15 de agosto de 1903, quando venceu as eleições concorrendo com Manoel Esperidião da Costa Marques. O governo de Totó foi marcado pela tentativa de reorganizar o Estado, mas também por muitos fatos violentos. 

Desde 1904, quando Generoso Ponce retornou de Assunção para Corumbá, o ambiente político na capital se tornou mais tenso. Este clima piorara um ano antes, quando os irmãos Murtinho reataram forças com Ponce, formando juntos a Coligação Mato-Grossense, que unia o antigo Partido Republicano -- da qual Ponce fazia parte -- e da Dissidência, ala dos murtinhistas.

A impopularidade de Totó Paes ficou mais evidente em 1º de novembro de 1905, quando nas eleições para Assembléia Legislativa e Câmaras Municipais a Coligação fez maioria. Maioria que se repetiu em 30 de janeiro deste ano, quando a Coligação também elegeu a maior parte para o Senado e a Câmara Federal. Foi neste clima tenso que Generoso Ponce resolveu reunir forças militares para, em 17 de maio deste ano, partir rumo a Cuiabá a fim de tomar a capital.

As forças militares reunidas por Generoso Ponce em Corumbá estavam compostas por 10 vapores e 20 chatas trazendo 500 homens, número que foi aumentando no decorrer da viagem até chegar a 2 mil já em Cuiabá. A este movimento, também chamado de Divisão Sul, foi somada a Divisão Norte, composta por 1,2 mil homens e liderada pelo coronel Pedro Celestino, também sob a coordenação de Generoso Ponce. Foi a Divisão Sul que ocupou a Usina Itaicy, de Totó Paes, e a Fazenda Pindaival, do irmão do presidente, Henrique Paes de Barros, golpes considerados fatais para Totó.

Já com cerca de quatro mil homens, no final de junho Generoso Ponce mandou um ultimato a Totó Paes, que não respondeu e fugiu de Cuiabá. Totó acionou o governo federal e aguardava, na Fábrica de Pólvora, a chegada do socorro da Expedição Dantas Barreto. Mas ele jamais chegou a vê-la algum dia.

Ao contrário do que acontece hoje, no início do século passado era chamado presidente a autoridade máxima do Estado e governador a autoridade máxima da República. As tropas de Dantas Barreto, que eram aguardadas por Totó Paes em Cuiabá no início de julho de 1906, só chegaram na capital dia 17 de julho de 1906. Totó foi morto com dois tiros, um no tórax e outro no ouvido esquerdo.

Reprodução

toto paes

Ex-governador de Mato Grosso Totó Paes foi assassinado com dois tiros

Não era a primeira vez que o cargo máximo do Estado vitimava seu detentor. Era o princípio da noite de 9 de maio de 1837 quando um homem não identificado efetuou dois disparos de arma de fogo contra João Poupino Caldas.

“Poupino tentou sair da cidade. Não conseguiu. Sua morte foi providenciada com uma bala de prata, disparada por um vulto não identificado, no escurecer cuiabano de 9 de maio de 1837, no antigo Beco da Câmara, hoje, Travessa João Dias. Em trovas, a morte de Poupino foi comemorada, ainda no dia de seu velório, com letra escrita em papeis escritos à mão e distribuídos pela cidade, em ruas, cantos e becos”, conta o historiador e ex-secretário de Cultura.

A história da trova que decantava em verso a ida de Poupino Caldas ao imenso incognoscível, quando sentiu as asas da morte roçarem-lhe frias o seu corpo, foi registrada pelo historiador Rubens de Mendonça (2012, p. 45), exatamente o autor que celebrizou-se em Cuiabá pela produção de homéricas e históricas trovas: “No dia nove de maio/Depois da Ave Maria/Matei Coronel Poupino/Era tudo quanto queria”.

Detalhe: projéteis confeccionados em prata, eram reservados naqueles dias de princípio do século 20 somente aos traidores. Tenente-coronel João Poupino Caldas assumiu a presidência da Província no dia 28 de maio de 1834. Lá permaneceu até 22 de setembro do mesmo ano. Foi nesse período que arrebentou a revolta nativista chamada de Rusga. Naquele período de terror, a até então pacata comunidade cuiabana virou zona de guerra, a explodir em violência com brasileiros à cata de portugueses, a quem repudiavam.

Os cuiabanos apelidavam seus antigos colonizadores de bicudos. Essa alcunha vinha da maneira como classificam os portugueses ao lidar com brasileiros, segundo relatos, com falta de apreço e menosprezo.

“A Sociedade Zelosos da Independência, instituição derivada da Nacional, Defensora da Liberdade e Independência, foi fundada por Antônio Luís Patrício da Silva Manso, Pascoal Domingues de Miranda, Bento Franco de Camargo, João Fleury de Camargo, Brás Pereira Mendes, dentre outros, conforme publicou em seu livro História das Revoluções em Mato Grosso, o historiador Rubens de Mendonça (2012, p. 32). Essa sociedade organizou a movimentação que visava a retirada dos portugueses e estrangeiros, em geral, proprietários de casas e comércios. Pensaram em um castigo para ficar à história. Registra-se que o principal chefe desse movimento em Mato Grosso foi o médico cirurgião e botânico Antônio Luiz Patrício da Silva Manso, que ficou sendo conhecido pelo apelido de O Tigre de Cuiabá (Mendonça, 2012)”, escreveu João Vicente em seu novo trabalho.

Gritos, berros, choros e súplicas pelas vidas de pelo menos uma centena de portugueses foram ouvidos em vão. De nada adiantou a súplica do bispo D. José Antônio dos Reis na noite da Rusga

Naquela noite, já às 23h, Joaquim Antônio Rodrigues escreveu ter ouvido “(...) tocar rebate de cometas e caixas de guerra, tiros de arcabuzes, e gritos de morram os bicudos. Na escuridão da noite apenas se ouviam barulhos de machados e alavancas arrombando as portas de todos os negociantes adotivos ali residentes. O batalhão dos Nacionais tinha tomado o quartel, estando à testa deles o Sargento-Mor Caetano Xavier da Costa e o Ajudante Euzébio Luís de Brito. Do Campo d’Ourique vieram oitenta homens, quarenta comandados pelo Tenente Sebastião Rodrigues da Costa e quarenta sob o comando do Ajudante Euzébio Luís de Brito”, em texto trazido até os dias atuais sob reprodução do historiador Rubens de Mendonça em seu livro História das Revoluções em Mato Grosso (2012, p. 33).

Gritos, berros, choros e súplicas pelas vidas de pelo menos uma centena de portugueses foram ouvidos em vão. De nada adiantou a súplica do bispo D. José Antônio dos Reis, que de crucifixo na mão implorava o término da carnificina. Como Cabanagem, no Pará, e na Revolução Farroupilha, no Rio Grande do Sul, o objetivo era dar fim a qualquer sombra de dominação portuguesa.

Curiosamente, o mesmo Antônio Luiz Patrício da Silva Manso também foi assassinado, anos depois, com uma bala de prata. Entrou para a história a anedota de que as baladas foram feitas com o que sobrara da prata com a qual foi feita as balas que mataram seu desafeto Poupino Caldas, já onze anos depois da primeira morte, em 1848.


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