Juara (MT), 15 de dezembro de 2017 - 01:53

? ºC Juara - MT

Mundo

23/11/2017 16:57

37 anos depois, era Mugabe no Zimbábue chega ao fim

São Paulo – Era 18 de abril de 1980 quando o Zimbábue que o mundo hoje conhece nasceu. Até então Rodésia do Sul, uma colônia britânica governada por uma minoria branca, o país africano conquistou a sua independência depois de uma violenta guerra que durou sete anos e matou quase 30 mil pessoas.

Dias depois, a bandeira britânica era arriada em Salisbury, capital que passaria a se chamar Harare, dando lugar à bandeira do Zimbábue, colorida por duas faixas vermelhas que representam o sangue derramado daqueles que lutaram pela sua liberdade. Chegava ao fim 90 anos de colonialismo e começava uma nova fase daquele que passou a ser visto como um dos países mais promissores da África.

Robert Mugabe, na época com 56 anos, ascendeu como primeiro-ministro e grande líder revolucionário. Durante seus 37 anos no poder, se tornou uma figura polêmica, articulador de políticas econômicas que arruinaram o Zimbábue, um violento repressor das liberdades individuais. Governou sob acusações de que suas vitórias eleitorais foram fruto de fraudes nas urnas.

Ainda assim e apesar de todas as tentativas de assassinato, Mugabe, hoje 93, seguiu na liderança do país até que um erro estratégico colocou um ponto final em um dos governos mais longos já vistos no continente africano: ele renunciou ao posto nesta terça-feira, 21 de novembro, depois que militares tomaram as ruas de Harare e passaram a controlar pontos importantes do país.

A ação, no entanto, não foi exatamente articulada por opositores de seu governo e sim por aliados em seu partido, o Zuna-PF (União Nacional Africana do Zimbábue – Frente Patriótica), e as Forças Armadas, ambos formados por nomes que participaram da libertação do país.

Esses grupos são, ainda, contrários à ideia de que as pessoas ligadas ao movimento da independência pudessem ser afastadas do alto escalão do poder. Com as suspeitas de que a esposa de Mugabe, Grace, 52 anos, pudesse estar sendo preparada para suceder o marido, as relações se estremeceram.

A crise se intensificou nos últimos dez dias depois da destituição de Emerson Mnangagwa, veterano da guerra, rival político de Grace e cotado para ser o novo presidente, do cargo de vice-presidente e a acusação do governo de que o chefe das Forças Armadas cometeu atos de traição. Como resposta a Mugabe, veio a intervenção militar.

Foram momentos de tensão até que Mugabe deixasse a presidência. Chegou a ficar detido em prisão domiciliar ao lado de Grace e vários de seus ministros. Pressionado, foi destituído da liderança do Zanu-PF por Mnangagwa, imediatamente alçado ao posto, e viu, ainda, sua esposa e aliados serem expulsos da legenda.

Um prazo fora dado para que o líder máximo do Zimbábue renunciasse à presidência e saísse com a sua honra menos abalada. A janela de oportunidade fechou na segunda-feira, 20 de novembro, e um processo de impeachment começou a caminhar. Tal, no entanto, sequer chegou a ser apreciado.

A era Mugabe

A primeira-ministra do Reino Unido, Margaret Thatcher, e Robert Mugabe se encontram em Londres em maio de 1980

Robert Gabriel Mugabe nasceu em 1924 em Kutama, cidade localizada ao norte de Harare. Estudou com missionários católicos e frequentou a Universidade de Fort Hare, a mesma do líder sul-africano Nelson Mandela.

Foi professor em Gana até 1960, quando retornou ao país e fundou o Zanu. Passou dez anos preso entre 1964 e 1974 por “discurso subversivo” e, ao deixar a prisão, fez parte da Frente Patriótica do Zimbábue e se tornou uma peça-chave no movimento pela independência e na guerra civil contra o governo de minoria branca, encabeçado pelo primeiro-ministro Ian Smith.

O conflito terminou em 1979, quando negociações de paz foram invocadas pelo Reino Unido, que então supervisionou eleições parlamentares no ano seguinte. Mugabe e seu partido se consagraram vencedores e ele foi nomeado como primeiro-ministro do que passaria a se chamar Zimbábue.

Os anos seguinte, no entanto, foram de mais violência, com aliados de Mugabe perseguindo dissidentes do partido em confrontos que matariam mais de 10 mil pessoas entre 1983 e 1985. Assume a presidência em 1988 e passaria os próximos doze anos consolidado na liderança do país, que mergulharia em uma grave crise econômica

A população seguiria enfrentando cenários duros no início dos anos 2000 quando o governo começou a expropriar propriedades de fazendeiros brancos para redistribui-las entre a população negra sem qualquer tipo de compensação. Sua esposa, Grace se beneficiou diretamente dessa ação, tendo recebido hectares e hectares de terras férteis e fazendas leiteiras.

Tal política, no entanto, ajudou a desestabilizar a produção agrícola do Zimbábue, aprofundando a falência econômica e causando turbulência humanitária, essa causada pela escassez de alimentos. Em 2008, uma epidemia de cólera vira emergência e o sistema de saúde do país entra em colapso.

Agarrado ao poder e protegido pelo status de um dos líderes anticolonialistas mais longevos, Mugabe seguiu declarando vitórias em eleições que foram marcadas por uma violenta repressão e cujos resultados foram contestados.

Após sua reeleição em 2013 e as derrotas da oposição, o mundo começa a crer que a previsão feita por Mugabe certa vez (a de que governaria até os 100 anos) poderia se consolidar. Em pleno 2017, no entanto, o presidente conseguiu fazer com que a insatisfação de seus aliados e colegas de luta contra si atingisse um novo patamar que culminaria com o fim da sua era à frente do país que ajudou a fundar, e afundar.

E agora?

O futuro do Zimbábue, no entanto, é incerto. A oposição liderada por Morgan Tsvangirai e seu partido, MDC (Movimento para a Mudança Democrática), pede por uma passagem que prepare o país para as eleições de 2018, quando a população escolherá um novo presidente.

Há, contudo, a expectativa de que Mnangagwa ascenda ao posto, especialmente após ter sido nomeado como líder do partido. Neste último cenário, a esperança por mudanças por parte da população e a oposição irá se dissipar, já que o regime do Zuna-PF continuará.


Banner hospital quadrado

Acesse Notícias

Em tempo record o site mais visitado do Vale do Arinos

Copyright 2016 - Todos os direitos reservados.

Redes Sociais

Crie seu novo site AgenSite
versão Normal Versão Normal Painel Administrativo Painel Administrativo