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15/01/2018 13:45 Estadão Mundo

Protestos marcam sete anos de revolução na Tunísia

TÚNIS - Com protestos e confrontos com a polícia, os tunisianos marcaram neste domingo, 14, o sétimo aniversário da revolução que pôs fim a 23 anos de ditadura de Zine El Abidine Ben Ali, que foi o estopim da Primavera Árabe. A data foi marcada por um misto de orgulho pelo aniversário da queda do ditador, e por raiva diante da persistência das mesmas mazelas que continuam a afligir o país: pobreza, desemprego e corrupção.

Sob forte esquema de segurança, centenas de partidários de diferentes movimentos foram à avenida Habib Burguiba, epicentro dos protestos de janeiro de 2011, marcar o aniversário da revolta que causou a queda de Zine El-Abidine Ben Ali após 23 anos de poder.

A revolução "é a melhor coisa que poderia ter acontecido, apesar das dificuldades. Enquanto houver pessoas (que acreditam nela), haverá esperança", afirmou Mohamed Wajdi, jovem tunisiano que participou das comemorações.

Sete anos após a queda de Ben Ali, que vive exilado na Arábia Saudita, muitos tunisianos acreditam que ganharam liberdade, mas perderam em padrão de vida.

Apesar do sucesso relativo de sua transição democrática, a Tunísia não se livrou da morosidade econômica e social. Na semana passada, protestos pacíficos e distúrbios noturnos abalaram várias cidades.

Cesto vazio

Alimentado por um desemprego persistente - de 15%, segundo dados oficiais -, o descontentamento social tem sido exacerbado pelos aumentos de impostos previstos para 2018, abocanhando um poder de compra que também é afetado pelo aumento da inflação - mais de 6% no final de 2017.

Os manifestantes exigem a revisão do orçamento votado em dezembro, mas também uma luta mais efetiva contra a corrupção.

Em frente à sede do poderoso sindicato UGTT, milhares de pessoas se manifestaram, como Fued El-Arbi, que exibia uma cesta vazia com a menção "2018". "Esta cesta vazia resume a nossa situação medíocre sete anos após a revolução", criticou este professor de filosofia.

O UGTT convocou uma passeata no centro da cidade, assim como a Frente Popular, de oposição. O partido esquerdista foi acusado pelo primeiro-ministro Yussef Chahed de ser responsável pela agitação desde o começo do ano, quando cerca de 803 pessoas foram presas por suspeitas de violência, roubos e saques, de acordo com o Ministério do Interior.

Organizações locais e internacionais de defesa dos direitos humanos denunciam, no entanto, que entre os detidos estão ativistas e jornalistas, em uma aparente campanha de intimidação por parte do governo.

O presidente Beji Caid Essebsi marcou o aniversário visitando o bairro de Ettadhamen, na periferia de Túnis, onde ocorreram confrontos entre jovens manifestantes e as forças de segurança na semana passada.

'Livres, mas com fome'

A revolução tunisiana foi desencadeada pela autoimolação, em 17 de dezembro de 2010, em Sidi Buzid - cidade no interior do país - do vendedor Mohamed Buazizi, desesperado com a pobreza e a humilhação da polícia.

Sob pressão popular, o presidente Ben Ali fugiu do país em 14 de janeiro. O levante fez 338 mortos.

Para a cientista político Olfa Lamloum, a agitação social dos últimos dias "revela uma raiva carregada pelas mesmas pessoas que se mobilizaram em 2011 e não conseguiram nada".

"Faz sete anos que não vemos nada entrar. Temos a liberdade, é verdade, mas estamos com mais fome do que antes", resumiu Walid, um desempregado de 38 anos em Teburba, perto de Túnis.

O movimento social foi lançado no início de janeiro sob o lema "Fech Nestannew" ("O que estamos esperando?"), cujos instigadores exigem mais justiça social em resposta aos aumentos de impostos decididos no novo orçamento.

Em dificuldade financeira, especialmente após a crise no setor turístico ligada a uma série de ataques jihadistas em 2015, a Tunísia obteve em 2016 um empréstimo de € 2,4 bilhões ao longo de quatro anos do Fundo Monetário Internacional (FMI). Em troca, comprometeu-se a reduzir seu déficit público e reformas econômicas.

Para conter o ambiente de tensão, o governo anunciou ontem que reajustará o auxílio estatal das famílias mais necessitadas para amenizar os efeitos dos ajustes fiscais exigidos pelo FMI. / AFP E EFE


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