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12/05/2018 09:50 Estadão

Uma mestiça na realeza britânica após 257 anos

Jean Carter nunca se preocupou em sair à rua para assistir a alguma aparição da família real. Mas quando o príncipe Harry e sua noiva Meghan Markle visitaram Brixton este ano, ele comprou um buquê e enfrentou uma tarde gelada para ver o casal.

E ficou feliz ao ver Harry, o filho de  barba ruiva da princesa Diana, morta em 1997. Imigrante da Jamaica, Carter 72 anos, na verdade queria ver Meghan, a atriz americana mestiça que hoje é objeto de fascinação na Inglaterra.

Brixton, situado ao sul de Londres, onde convivem múltiplas etnias, é núcleo de uma geração fundadora de imigrantes afro-caribenhos. É um local de convergência tão importante para a história da diáspora africana que os historiadores ingleses chamam a região de capital negra da Europa. Quando o então presidente sul-africano, Nelson Mandela, esteve na Grã-Bretanha em 1996 ele visitou o Palácio de Buckingham  – e Brixton.

Mas o que significa ter um membro mestiço na monarquia após o casamento de Harry e Meghan no dia  19?

Membros mestiços dentro da realeza na Inglaterra são tão raros que é preciso viajar muito distante no tempo, para antes da Revolução Americana, para encontrar alguém com esse perfil: alguns historiadores acreditam que a rainha Charlotte, mulher de George III, tinha ascendentes negros.

Para muitos negros britânicos, vale a pena comemorar o fato de que a família que simboliza a identidade britânica terá um ar um pouco mais moderno como a Grã-Bretanha, especialmente Londres, que tem registrado números crescentes de casamentos inter-raciais.

Mas a experiência negra americana é muito distinta da britânica. As pessoas aqui dizem que uma mulher mestiça que entra na realeza pelo casamento, mesmo que seja uma pessoa expansiva, provocará um impacto numa época em que a imigração é um assunto tão tóxico e mesmo imigrantes caribenhos legais têm se sentido pessoas indesejáveis.

Afua Hirsch, autora do livro Brit(ish): One Race, Identity and Belonging, está ansiosa para ver o que Meghan vai provocar e como sua chegada ao Palácio de Kensington  poderá mudar a sociedade.

Como é uma dinastia inteiramente branca, a família real “influencia a percepção dos britânicos no sentido de terem uma identidade branca”, disse ela. Mas ter um membro na realeza que é mestiça “mudará a mensagem do subconsciente sobre o que significa ser britânico”, acrescentou.

E não tem a ver apenas com sua etnia, mas a maneira como ela a assume, disse Hirsch. “Acho que é porque ela é americana. Penso que esta é realmente uma mensagem renovadora. As pessoas notarão que você pode ser uma pessoa com uma identidade diferente, com uma herança étnica e cultural diferente, e  pode ocupar uma posição superior no establishment sem ter de ignorar ou desvalorizar essa identidade.

Por muitas razões, raça não é um assunto discutido abertamente na Grã-Bretanha como é nos EUA. E quanto esse tema emerge, o tom da conversa pode soar estranho aos ouvidos americanos, como no caso da manchete do Daily Mail: “Agora, isto é mobilidade social! Como, em 150 anos, a família de Meghan Markle, de escravos das fazendas de algodão chegou à realeza por meio da liberdade conseguida na Guerra Civil americana...”

Os britânicos discutem a questão da “imigração” como equivalente a raça, disse Nels Abbey, ex-colunista do jornal britânico Voice e coautor do livro Think Like a White Man.

As pessoas “jurarão por Deus que, ao falarem sobre imigração, não estão se referindo a raça, quando nitidamente estão”, disse Abbey, acrescentando que no contexto da imigração “eles jamais falam sobre pessoas brancas da Austrália”.

“Se você aceita que o debate sobre imigração é um debate racial, então na Grã-Bretanha fala-se sobre raça mais do que qualquer outra coisa. Se não aceita isso, então os britânicos não abordam absolutamente essa questão”.

Meghan, por seu lado, é sincera. Escrevendo na revista Elle, em 2016, ela lembrou ter ficado confusa quando, ainda garota, não sabia se escrevia “branca” ou “negra” num formulário. Sua mãe, Doria Ragland, é negra, e seu pai, Thomas Markle, é branco.

“Embora minha herança mestiça possa ter criado uma situação não muito clara sobre minha identidade, me mantendo numa posição dúbia, acabei aceitando isso e afirmar quem eu sou, de onde venho, expressar meu orgulho em ser uma mulher mestiça forte e confiante.”

O príncipe Harry, também, tem sido direto em sua defesa. Um comunicado extraordinário emitido pelo palácio em novembro de 2016 condenou a cobertura da mídia sobre a relação do casal que começava, as “conotações raciais” dos artigos, “o sexismo e racismo dos trolls na mídia social e comentários na internet”.

Tais comentários continuaram em ebulição. Este ano, o líder do Partido Independente UK, que teve um papel fundamental no referendo do Brexit, foi alvo de críticas e acabou perdendo o emprego – após sua namorada enviar mensagens de texto dizendo que negros eram “repulsivos” e  Meghan “mancharia” a família real.

Depois de ser nomeado embaixador da juventude da Commonwealth, o príncipe Harry revelou que “a mulher com quem vou me casar”, se uniria a ele nessa nova função. A Commonwealth, presidida pela avó do príncipe, a Rainha Elizabeth II, inclui 53 nações que outrora fizeram parte do Império Britânico, incluindo o Canadá, Austrália, Índia e Paquistão e dezenas de país da África e do Caribe.

É possível que o papel do casal se torne global e impulsione não só a marca da Casa de Windsor no exterior, mas a diplomacia branda da Grã-Bretanha, já que a benevolência anda escassa atualmente.

Com relação à Grã-Bretanha, Meghan  encontrará diferenças. O Reino Unido é 87% branco, os negros constituem 3% da população, em comparação com mais de 13% nos EUA. A Grã-Bretanha foi uma nação que comercializou escravos e sua economia colonial tinha como base o trabalho escravo e a opressão. Mas, ao contrário do Sul dos Estados Unidos e das ilhas do Caribe, as fazendas da Inglaterra não foram cultivadas por escravos negros. Muitas famílias britânicas negras chegaram aqui a partir dos anos 50.

O país não teve o mesmo tipo de movimentos em prol dos direitos civis que existiram nos EUA. A segregação não foi contemplada em lei como nos EUA. Quando distúrbios irromperam em Brixton na década de 80 foi porque a Grã-Bretanha estava vivendo uma espécie de movimento como o Black Lives Matter, com os moradores negros se manifestando contra o fato de serem  tratados duramente pela política.

Hoje, muitos negros no país são parte, ou descendentes, da geração Windrush – cidadãos da Commonwealth do Caribe que foram recebidos na Inglaterra para reconstruir o país e preencher a escassez de mão de obra pós a 2ª. Guerra.

Nos últimos anos, à medida que o país passou a adotar medidas severas contra a imigração ilegal, os imigrantes Windrush que não conseguiam fornecer documentação provando que estavam no país legalmente perderam seu emprego, ficaram sem assistência médica e em alguns casos foram ameaçados de deportação.

Merle Mitchel, enfermeira de 57 anos que passeava por um dos mercados de rua em Brixton, disse não ser simpática à realeza, mas que Meghan poderá mudar sua percepção sobre a monarquia, por causa da sua raça e também do seu ativismo.

“Quando Diana morreu, deixei tudo de lado. Mas acho que Meghan pode restaurar uma parte do que se foi. Não digo isso porque ela é mestiça, mas porque vejo as mesmas qualidades nela, seu humanismo, e isso realmente me inspirou.

Merle disse que não existe ninguém no palácio que uma mulher negra possa apontar e dizer “essa pessoa parece comigo”. “Precisamos de um pouco de cor na família real”, afirmou. / TRADUÇÃO DE TEREZINHA MARTINO


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