Juara (MT), 17 de outubro de 2018 - 01:32

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Saúde

02/02/2018 08:17 SES - MT

Samu: a emergência que salva 27 mil vidas

Samu emergência”, diz o atendente do outro lado da linha. Chamar 192 ao telefone é quase um ato traumático para muitos, afinal o pedido de socorro sempre segue uma situação de desespero. O serviço de emergência apenas é acionado em casos como acidentes de trânsito, tiroteios, crises convulsivas, afogamentos, entre outras graves situações em que a vida humana testa os seus limites. 

Nesta edição o Circuito Mato Grosso vai apresentar como funciona e quem são os profissionais que estão por trás do mais delicado processo de socorro e emergência nacional, o Serviço de Atendimento Móvel de Urgência (Samu).

 O socorro de emergência funciona como um serviço de inteligência. “Na hora de salvar uma vida, um minuto pode ser decisivo”, explica uma das médicas do Samu, Eliane Pires.

Na central de atendimento, cerca de 20 estações não param de receber ligações. As chamadas são repassadas dos recepcionistas, também enfermeiros, aos médicos. O processo deve ser feito em menos de um minuto para que a ambulância chegue ao local a tempo de prestar o socorro.

Atrás da linha de atendimento, o recepcionista busca as informações mais importantes para que o médico-chefe da central decida qual será o procedimento. Enquanto ele repassa a ocorrência para os outros médicos, as ambulâncias são acionadas nas centrais mais próximas do local do socorro.

A intensidade do estresse do trabalho é sentida já nos primeiros segundos do atendimento via telefone. O profissional precisa ter calma para retirar informações corretas e necessárias de alguém do outro lado da linha que geralmente está no limiar do desespero e tenta prestar socorro a algum parente ou conhecido, em muitos casos, sob o risco de morte. No local do acidente, é preciso manter os nervos controlados para socorrer as vítimas.

O socorro prestado por essas unidades começa no momento em que o médico atende ao telefone. “Nós já começamos a passar alguns procedimentos básicos de primeiros-socorros para quem estiver ao lado da vítima ou até a própria pessoa, se ela estiver em condições de fazer algum procedimento. Isso, além de reduzir a tensão, pode ajudar a vítima suportar até a chegada da ambulância”, explica a médica.

Isso, no entanto, é uma face de motoristas, enfermeiros e médicos que prestam socorro de emergência e urgência pelo Samu. Entra forçosamente na rotina de trabalho lidar com a escassez de materiais de serviço, que vão de gaze a ambulância, e salários atrasados.

Hoje, a Central Samu de Cuiabá e Várzea Grande tem uma equipe de motolância, (adaptação de ambulância em moto), cinco unidades básicas sem médico (três em Cuiabá e duas e Várzea Grande) e duas unidades médias, cada uma para cidade. Esse grupo atendeu 25.968 chamados de emergência em 2017. E outros 21.969 receberam orientação médica via telefone.

Além de Cuiabá e Várzea Grande, a Central Samu atende ocorrências em Juína, Poconé, Colniza, Chapada dos Guimarães, Brasnorte, Aripuanã e Cotriguaçu.

Em Mato Grosso existem dois tipos de ambulância, a básica e a avançada. A diferença entre as duas é que a avançada dispõe de uma equipe com médico, enfermeiro e socorrista para a hora do atendimento, enquanto a básica conta apenas com o enfermeiro ou técnico em enfermagem e o socorrista.

Cada profissional tem papel fundamental dentro da ambulância: o médico e o enfermeiro são treinados para atender, com agilidade, às mais diversas ocorrências. O socorrista, por outro lado, é o motorista do veículo que também é treinado para prestar socorro e, ainda, é considerado pelos companheiros como o guardião da equipe. “O médico e o enfermeiro são bons para o paciente, e o socorrista é bom para todos”, apontou José Carlos Soares Pereira, enfermeiro da ambulância.

Quando o Samu recebe a ligação de alguém em situação de risco, é feita uma triagem na qual o médico seleciona o tipo de ambulância que deverá prestar o socorro. Se o paciente estiver em estado grave, os socorristas serão acionados rapidamente e avisados para irem com a ambulância avançada. No entanto, se o caso for de baixa complexidade, a ambulância básica será direcionada para o atendimento, mas os profissionais da avançada estarão dando cobertura para o caso de a situação se complicar.

Um trânsito que não respeita ambulâncias

A ambulância básica conta com alguns instrumentos para dar aos pacientes os primeiros cuidados. Dentre estes, é essencial ter um cilindro de oxigênio e máscaras de oxigênio para as vítimas de traumas, por exemplo, assim como mochilas com soro e desfibriladores, além das talas e dos colares cervicais para a imobilização.

O tempo médio desde a saída da base até a busca da vítima, a triagem e o direcionamento à UPA ou ao Pronto Socorro deve ser de 15 minutos, algo que muitas vezes não acontece.

José Carlos relata que a grande dificuldade dos socorristas é a falta de educação dos motoristas para respeitar a ambulância no trânsito. Outro agravante que dificulta o socorro é a dificuldade em encontrar os locais onde estão as vítimas. Por isso, o enfermeiro pede que, durante a ligação para o Samu, o solicitante deixe sempre um ponto de referência e tenha paciência e calma ao falar com o atendente da central, pois ele precisa do máximo possível de informações para a ambulância chegar ao local do socorro.

“Quando a gente perde uma vida, é um dia muito ruim para nós. Quando estamos ganhando todas, está bom, mas se perdemos uma vida, especialmente se for de manhã, o resto do dia fica triste”, conta.

Após o resgate, os profissionais fazem a avalição dos sinais vitais, como pressão arterial e temperatura, para transmitir ao médico as informações e, em seguida, levarem o paciente para o local escolhido. Os pacientes clínicos são, na maioria dos casos, levados para a policlínica, e os pacientes com trauma vão diretamente para o Pronto-Socorro de Cuiabá.

Ao acompanhar um dos resgates realizados pela equipe liderada por José Carlos, o tempo médio entre a saída da ambulância e a retirada da vítima do local aconteceu em menos de 15 minutos (confira o vídeo no site).

O socorro foi acionado para atender uma colisão frontal entre uma moto e um carro em um bairro de Várzea Grande. Apesar de não estar com nenhuma fratura aparente, a vítima foi imobilizada com o colete e levada de maca para o Hospital Metropolitano.

As falta de macas para prestar esse tipo de atendimento é um problema constante para o Samu. O socorro às vítimas muitas vezes depende das macas especiais, principalmente nos casos de acidentes com traumas, em que o acidentado precisa ser totalmente imobilizado. Um dos problemas atuais é que com a crise da saúde que o Estado de Mato Grosso enfrenta, muitos hospitais acabam não tendo leitos para receber os acidentados e ficam com as macas do Samu, impedindo as ambulâncias de prestar novos socorros até que essas sejam devolvidas. 

50% das ligações feitas para o Samu são trotes

Infelizmente, nem todo mundo que chama o Samu está em busca de socorro. Quase a metade das ligações recebidas pela linha de urgência do serviço são trotes. A quantidade absurda somou 59.152 ligações (46,3%) das 127.704 registradas em 2017. São casos de crianças, jovens e adultos que gastam tempo para passar informações sobre falsos acidentes de trânsito, doméstico e sobre pessoas inexistentes com necessidade de atendimento médico de emergência. Os números são de levantamento realizado pela Central Samu 192.

“É um número muito alto considerando o que recebemos por ano, e só vem aumentando. Isso significa que os profissionais que atendem as ligações – a maioria de médicos prontos para colher e passar informações – ficam atados, porque não há como saber de imediato se é trote ou não”, explica a diretora da Central Samu 192, Bruna Karoline de Almeida Santiago.

A central, que atende a Grande Cuiabá e mais sete cidades do interior de Mato Grosso, recebeu, no ano passado, um mínimo de 10 mil ligações por mês, cerca de 330 por dia e 13 a cada hora. E mais ou menos 50% dessas ligações foram trotes. Cada atendimento dura até um minuto, tempo necessário para que a coleta de informações o tipo de ocorrência, situação da vítima, ou das vítimas, e a localização da ocorrência.

“A pessoa que liga para a gente não está em situação de dar detalhes sobre a situação, e ainda assim precisamos tirar dela as informações necessárias para saber que tipo de equipe vai sair para o atendimento, passar orientação de primeiros-socorros e ainda localizar onde está ocorrência, e daí passar para a equipe médica mais próxima do local. Tudo em um minuto”, diz o médico Felipe Augusto Santos Saragiotto, responsável pela equipe médica do Samu.

Cada saída de equipe para atender uma falsa ocorrência repassada por trote significa uma a menos ou tempo desnecessário de espera para atender as ocorrências reais.

Três avenidas concentram acidentes em Cuiabá

As três principais avenidas de Cuiabá concentraram a maior quantidade de acidentes socorridos pelo Samu no ano passado; juntas elas concentram 887 chamadas das 1.413 atendidas pelo serviço em avenidas de intenso fluxo de trânsito na capital. A Avenida Miguel Sutil teve 329 ocorrências, a Historiador Rubens de Mendonça (Avenida do CPA) 289, e a Fernando Corrêa da Costa, 269.

Além delas, o Samu classifica outras quatro avenidas com intenso trânsito em Cuiabá, cortando a cidade em várias regiões. A Avenida Dante Martins de Oliveira, antiga João Gomes Sobrinho, aparece logo em seguida com 156 acidentes com chamado do serviço médico; a Avenida das Torres que corta a cidade paralelamente à Fernando Correa, teve 146 casos, a Beira Rio, 137, e a Carmindo de Campos, 87.

Em Várzea Grande, os números sem bem mais baixos, mas também com concentração em algumas avenidas – Júlio Campos (144), da FEB (135), Filinto Müller (132), 31 de Março (85), Alzira Santana (69), Ulisses Pompeu de Campos (59) e Couto Magalhães (53).

Conforme levantamento da Central Samu 192, em 76% dos casos atendidos na Grande Cuiabá e na Baixada Cuiabana foi constatada a morte de ao menos uma vítima envolvida no acidente.

Por outro lado, mais de 27 mil vítimas foram socorridas pela equipe do Samu de janeiro a dezembro de 2017, uma média de duas mil vítimas por mês.


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