Juara (MT), 16 de novembro de 2018 - 17:49

? ºC Juara - MT

Saúde

02/11/2018 08:14 R7

"Nasci de um remédio que não deu certo", diz filha de pílula de farinha

Jovens que nasceram devido a escândalo com anticoncepcionais falsos completam 20 anos em 2018. Famílias relatam preconceito e dificuldade.

“Nunca imaginei que isso pudesse acontecer, acho muito estranho sair de um remédio que não deu certo.” Natália Alves dos Santos vai completar 20 anos em dezembro, trabalha e estuda biomedicina. “Soube com seis ou sete anos, mas levou tempo até entender bem.”

Sua mãe, a professora Sandra Regina Alves dos Santos, 48 anos, foi uma das centenas de mulheres que, em 1998, tomaram o anticoncepcional adulterado Microvlar, da farmacêutica alemã Schering. “Até hoje, tenho o hábito de guardar minhas cartelas de comprimidos vazias”, diz.

Hoje, 20 anos após o escândalo das pílulas placebos, compostas à base de farinha, vir à tona, os filhos dessas mulheres completam duas décadas de vida e relatam como transformaram a agonia de suas mães, após um dos maiores erros da indústria farmacêutica mundial, em uma rotina de alívio e satisfação. As trajetórias, porém, não foram simples. Apesar da alegria, mães e filhos enfrentaram riscos, tensão e preconceito.

Natural de Mauá, cidade paulista para onde foi destinado um dos maiores lotes do medicamento, Sandra engravidou durante a lua de mel mesmo fazendo uso contínuo da pílula. “Havíamos acabado de casar e não tínhamos condições financeiras para ter um filho”, diz. “Com todas as contas a pagar, ainda teria de pensar em um enxoval e todos os gastos de um bebê.” Com ajuda da indenização, Sandra conseguiu garantir os estudos da filha.

Sandra soube do erro da farmacêutica pela televisão, mas não tardou para encontrar histórias semelhantes à sua. “Conheci a mãe de uma aluna minha que ficou grávida da mesma forma e um garoto que estou no jardim com minha filha também nasceu a partir da pílula”, lembra.

Os amigos mais próximos, para quem Natália contou sobre o nascimento inusitado, também mostram indignação. “É algo bastante confuso, mas foi algo que aconteceu para o bem”, diz a menina. “Com o valor da indenização, consegui pagar os estudos da minha filha e sair do aluguel para uma casa própria”, afirma Sandra. A preocupação com a eficiência dos medicamentos, porém, é a mesma entre mãe e filha. “Tenho preconceito com remédio, fico com muito medo”, diz Natália.

Curiosa, a garota diz nunca ter tido dificuldade para falar sobre o caso. Apesar disso, na 6ª série, Sandra lembra que alguns meninos chegaram a praticar bullying contra Natália, a apelidando de “menina da farinha”. “Não me importei, não levei eles a sério”, afirma.Natália afirma somente na adolescência passou a compreender o que era um anticoncepcional.

"Achei que fosse acidente, mas minha mãe disse que era um presente para ela"

“No começo, achei que eu fosse um acidente, mas depois minha mãe me passou a ideia de que era, na verdade, um presente para ela”, diz Rafaela Dangel Silva. A jovem, que completará 20 anos em dezembro, é filha da motorista Silvana Dangel Silva, de 54, outra vítima dos comprimidos.

Desesperada, ela e outras vítimas recorreram a advogados de todo o país para obter indenizações na Justiça e conseguir levar adiante gestações que não haviam sido planejadas. Pelo contrário: acreditavam em uma prevenção eficaz.

Ao completar dez anos, Rafaela soube pela mãe que havia nascido a partir de um remédio falso. “Achava que minha mãe não me queria, não conseguia entender como poderiam vender um remédio errado”, diz. Com o tempo, a garota aprendeu a se esquivar de comentários que faziam referência a seu passado. “Um tio a chamava de Rafinha, uma mistura de Rafaela com farinha”, diz a mãe. Outros aspectos, porém, ainda não são tão bem resolvidos. A maior preocupação da jovem é com a eficácia dos medicamentos. “Não consigo tomar remédio sem ler toda a bula, não confio totalmente”, diz.

O sorriso no rosto da menina, contudo, não revela as dificuldades enfrentadas por Silvana quando descobriu a gestação. “Perdi minha mãe em março daquele ano, não estava preparada para ter um filho.” Minutos depois de ter feito o ultrassom que confirmou a gravidez, ela encontrou o marido com a decisão tomada: iria interromper a gestação. Isso porque Silvana havia feito uma cirurgia de retirada de trompas e não poderia ficar grávida por pelo menos cinco anos. Com a gravidez, foi obrigada a retirar todo o útero. “Tive hemorragias terríveis e o risco era ter perdido o bebê”, diz.

Quando notou a avalanche de casos noticiados à época, Silvana procurou a cartela de anticoncepcionais que fazia uso. “Não tinha validade, nem número de série”, lembra. Silvana e outras mulheres tiveram de juntar não apenas as cartelas vazias do medicamento ao processo, como também outras provas de que faziam uso contínuo das pílulas. 

A tranquilidade do estudante de engenharia da computação Gustavo Henrique Coelho contrasta com o desespero da comerciante Selma Aparecida da Silva Coelho, de 51 anos, ao saber da gravidez não planejada. Ela lembra que mesmo tomando a pílula no dia e hora “certinhos”, ficou inconformada quando a menstruação atrasou três dias. “Fui fazer o teste e deu positivo: ‘erraram na hora de fazer meu exame de sangue’, pensei”, diz Selma. “Chorei e fiquei sem chão, descontrolada”, lembra.

Ao sair do hospital, Selma deu a notícia a uma amiga que trabalhava em uma casa lotérica de São Paulo. “Depois de 15 dias, essa mesma amiga me ligou perguntando o nome do anticoncepcional porque a menstruação dela também tinha atrasado”, diz. Tempos depois, Selma soube que sua prima e a prima de seu marido também faziam uso do medicamento e passavam pelo mesmo drama. Eram quatro conhecidas, grávidas pelo uso da pílula da farinha.

Mesmo durante a gestação, Selma não deixou de trabalhar. “Sempre acordei muito cedo, não podia parar”, diz. “Ouvi muitas pessoas fazendo piadas do tipo ‘você engravidou da farinha, seu filho é filho da farinha”, afirma. Em casa, Selma optou por contar para Gustavo como engravidou desde o início. “Ele perguntava: 'Mãe, você não me queria?' Eu respondia: 'A mãe não queria uma gravidez, mas sempre te quis'.”

“Ela falou que era um remédio de farinha”, diz ele. “Mas me explicou da melhor forma possível.” O garoto afirma que costumava fazer perguntas sobre a história da pílula e que a mãe respondia naturalmente. “Ela sempre me tratou da mesma forma que meus irmãos”, diz. “Falamos sobre isso abertamente."

“O que vai ser da minha vida?”

Maria Aparecida Lopes, de 44 anos, foi mandada embora logo após ter dado à luz a Vitor Hugo Lopes Ferreira. Faltavam apenas três comprimidos para finalizar a cartela, quando Maria soube pelo jornal que mulheres haviam engravidado após ter consumir pílulas falsas. “Entrei em desespero, fui na farmácia e me avisaram que era um lote falso”, diz ela, que comprava a medicação há 10 anos.

Para levar a gravidez adiante, Maria Aparecida teve ajuda de familiares e vizinhos. “Entrei com uma ação na Justiça e comecei a receber um salário”, lembra. “Não tinha onde morar, vivia dentro do bar do irmão do meu marido. Depois fomos para os fundos da casa da minha sogra”, diz. Somente após os primeiros meses de indenização as coisas melhoraram. “Fazíamos o possível para sobreviver.

Vitor, que completará 20 anos em fevereiro, lembra que a mãe contou sobre o remédio falso quando era criança. “No começo, nem sabia o que era. Só com 13 anos, entendi melhor a situação porque saiu o resultado do processo”, diz. O garoto se lembra da época em que viviam de aluguel, em uma casa de três cômodos e dívidas a pagar. “Fiquei pensativo, mas depois percebi que se tornou um benefício para nós.”

Hoje, o garoto estuda enfermagem e reconhece que a possibilidade de finalizar os estudos veio também do valor da indenização pago pelo laboratório. “Mudou bastante minha vida, conseguimos sair de uma situação financeira difícil para outra um pouco melhor. Além disso, terminei o ensino médio, uma das maiores alegrias da minha vida.”

Maria Aparecida Lopes foi mandada embora logo após ter dado à luz a Vitor Hugo

Maria Aparecida Lopes foi mandada embora logo após ter dado à luz a Vitor Hugo

Edu Garcia / R7

Indenizações

Em maio de 1998, a farmacêutica alemã Schering recebeu uma carta anônima e uma cartela com um aviso de que o medicamento estava adulterado. Em junho, começaram a surgir os primeiros relatos de mulheres que haviam engravidado fazendo uso regular do Microvlar. Não tardou para uma reportagem dar visibilidade ao caso.

A advogada Virginia Dias Diniz, que atendeu 41 mulheres entre 1998 e 2011, recorda que diversas versões tentavam justificar o erro da companhia. Em uma delas, a Schering teria testado uma nova embalagem, com pílulas feitas de farinha, que mais tarde havia sido enviada para incineração. A empresa teria alegado que uma quantidade de cartelas foi roubada e revendidas a algumas farmácias. “As reações das mulheres que tomavam a pílula foram as mais diversas possíveis”, diz Virgínia.

Nos casos em que atendeu, Virgínia entrou com pedido para o pagamento de um valor em espécie para o parto, para o enxoval e pensões que variavam entre um e cinco salários mínimos até os quatro meses de vida da criança. “A Schering cumpria a decisão judicial, não fazia nenhum acordo além do determinado pela Justiça”, diz.

Num segundo momento, a advogada pediu ainda pensão alimentícia. Ao final do processo, elas recebiam indenizações por danos materiais e morais. Ficou estabelecido que as crianças nascidas a partir da pílula de Microvlar devem receber indenização até os 24 anos. “Depois desse caso, passou a ser obrigatório constar o número de lote nas embalagens de remédios”, afirma.

 

Fabíola Perez / R7

O Idec (Instituto de Defesa do Consumidor) também entrou com quatro ações na Justiça, pedindo o pagamento de indenização por danos materiais e morais sofridos por 10 de suas associadas. Na ação, o instituto pediu indenização para a criação, manutenção, educação e cuidados com a saúde dos filhos. Das quatro ações, o Idec teve êxito em três e sete mães receberam o benefício.

Silvana, mãe de Rafaela, recebeu R$ 8 mil para custear enxoval, gastos iniciais, três salários mínimos por mês até ela completar a faculdade. Sandra Regina, mãe de Natália, também recebeu três salários mínimos por mês e o equivalente a dez salários somente para o enxoval. Selma, mãe de Gustavo, também recebeu o benefício: são cinco salários mínimos até ele completar 24 anos. Além do valor recebido ao final do processo. Maria Aparecida, recebeu o equivalente a R$ 600 por mês e com o valor total conseguiu mudar de casa para começar uma nova vida ao lado da família.


Banner hospital quadrado

Acesse Notícias

Em tempo record o site mais visitado do Vale do Arinos

Copyright 2016 - Todos os direitos reservados.

Redes Sociais

Crie seu novo site AgenSite
versão Normal Versão Normal Painel Administrativo Painel Administrativo