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Saúde

08/08/2019 10:49 BBC NEWS

Como um corpo doado para estudos sobre Alzheimer acabou sendo usado em testes de explosivos

Um homem que doou o corpo da mãe para o que acreditava ser uma pesquisa sobre Alzheimer descobriu mais tarde que o cadáver foi usado para testar explosivos.

Mas, afinal, o que acontece quando um corpo é doado para a ciência?

Na semana passada, vieram à tona novos detalhes de uma ação judicial contra um centro de pesquisa biológicas chamado The Biological Resource Center, no Arizona, onde o FBI, a polícia federal americana, descobriu em 2014 centenas de partes de cadáveres descartadas.

O centro, que foi fechado, é acusado de vender ilegalmente partes de corpos, contrariando a vontade dos doadores.

Documentos judiciais divulgados recentemente revelaram que as famílias das pessoas cujos corpos haviam sido doados ao centro acreditavam que os restos mortais de seus parentes seriam usados ​​para pesquisas médicas e científicas.

Jim Stauffer é um dos vários indivíduos que estão processando o centro. Ele contou à rede ABC 15 Arizona que esperava que o corpo de sua mãe fosea usado para estudar o Mal de Alzheimer, doença que ela tinha, mas descobriu mais tarde que o cadáver foi usado por militares para analisar os efeitos de explosivos.

Ele diz que assinalou especificamente "não" quando perguntado, no formulário fornecido pelo centro, se consentia que o corpo fosse usado para testar explosivos.

Mas, afinal, como funciona a indústria de doação de corpos nos EUA?

Falta de regulamentação

Embora a doação de órgãos seja regulamentada pelo Departamento de Saúde e Serviços Humanos dos EUA, a doação de corpos continua sendo uma atividade desregulamentada.

A compra e venda de cadáveres é crime, mas é permitido cobrar uma quantia "razoável" para "processar" um corpo, o que inclui sua remoção, armazenamento, transporte ou descarte.

O que constitui uma quantia "razoável" também está aberto a interpretações. As instalações, em grande parte, podem estabelecer suas próprias práticas e políticas internas.

Também não há um registro nacional ou global conhecido que contabilize quantos corpos são doados para pesquisa médica a cada ano.

Mas estima-se que milhares de pessoas nos EUA doem corpos para educação ou pesquisa, acreditando que estão fazendo uma boa ação e que os corpos serão usados ​​para a ciência médica.

Os centros universitários de doação de corpos usam os cadáveres principalmente para ensinar estudantes de medicina, e muitos, como o da Universidade da Califórnia, se comprometem a manter a transparência nos processos.

Outros, como o Centro de Pesquisa Antropológica da Universidade do Tennessee, conhecido como "A Fazenda de Cadáveres", operam práticas mais específicas, como ensinar sobre decomposição de corpos a equipes forenses.

Brandi Schmitt, diretora-executiva de serviços anatômicos da Universidade da Califórnia, disse à BBC que o que acontece com um corpo doado depende do tipo de centro para onde ele vai.

"Qualquer um que esteja cogitando doar (corpos) para educação e pesquisa deve se certificar de verificar o propósito das organizações para as quais estão doando."

"Seja uma instituição acadêmica, um instituto médico legal ou uma empresa privada."

Schmitt destaca que as regulamentações que existem atualmente nos EUA não são suficientes para proteger os doadores e quem trabalha na área de ciência médica.

"O Ato de Doação Anatômica Uniforme (UAGA, na sigla em inglês) foi redigido pela Uniform Law Commission (organização sem fins lucrativos) e é uma regulação que pode ser modificada no nível estadual."

"Ela rege como e quem pode fazer, alterar e revogar uma doação anatômica, assim como os usos gerais da doação - como transplantes, tratamentos clínicos, educação e pesquisa", acrescenta.

"Não aborda políticas de consentimento, usos específicos, transferências, rastreamento, a maioria dos aspectos da disposição final ou modelos de lucro."

Schmitt defende a criação de regulações mais duras.

"A falta de uma regulamentação mais específica e suas variações levaram ao ponto em que estamos agora, com alguns abusos trágicos do propósito de um doador ou da família de causar impacto positivo por meio da doação."

"Os códigos regulatórios existentes devem ser aplicados, e acredito que já passou da hora de haver uma regulamentação adicional, incluindo um processo claro de autorização e consentimento para que doadores e famílias possam fazer uma escolha consciente", diz ela.

Além da UAGA, há outras diretrizes sobre como os corpos devem ser manuseados após a doação, como as da Associação Americana de Anatomistas.

"Os programas de doação de corpos devem descrever claramente o uso dos cadáveres no que se refere às necessidades institucionais e educacionais", diz.

A Associação Americana de Bancos de Tecidos é uma organização de acreditação do setor, embora a certificação não seja obrigatória.

O Biological Research Centre, no Arizona, não era considerado certificado e operava como um negócio com fins lucrativos. Ele oferecia serviços gratuitos de transporte para recolher os corpos e cremação, sendo uma opção atraente para famílias de baixa renda.

O proprietário do centro, Stephen Gore, se declarou culpado em 2015, mas foi condenado a cumprir pena em liberdade condicional. Ele e a empresa estão sendo processados por várias famílias por uso inadequado dos corpos e por não cumprirem as promessas feitas em seus formulários de consentimento.

"As pessoas que consideram a doação podem estar em um estado vulnerável, e é errado explorar seu luto ou propósito", diz Schmitt.

Na Inglaterra, no País de Gales e na Irlanda do Norte, a Autoridade dos Tecidos Humanos (HTA, na sigla em inglês) licencia e inspeciona organizações para as quais são doados corpos para pesquisa médica.

Existem cerca de 20 instituições no Reino Unido que aceitam doações de corpos, e as pessoas geralmente escolhem a mais próxima de casa ou de sua cidade natal.

As pessoas são encaminhadas para as instituições por meio do site da HTA ou do seu médico, advogado ou autoridade local.

No Brasil, o Código Civil prevê a doação de corpos de pessoas maiores de 18 anos com "objetivo científico, ou altruístico" para universidades e instituições de ensino. Se for o doador for menor, é necessário o consentimento dos responsáveis legais. O processo é gratuito para o doador e seus familiares.

A Universidade de São Paulo (USP), que tem um programa de doação para estudos anatômicos, afirma que apenas recebe os corpos, que podem ficar décadas no Instituto de Ciências Biomédicas para estudos - há alguns que estão ali há mais de 50 anos. A instituição não recebe corpos de indivíduos com doenças infecto-contagiosas ou que tenham sofrido mortes violentas, incluindo suicídio.

Para que a doação seja de fato efetivada, é preciso que o doador comunique seu desejo aos familiares ainda em vida, e esses concordem e efetuem o transporte do corpo à instituição após o óbito. É importante, de todo modo, que a decisão deve seja registrada em cartório. Mais informações aqui.

Em outros países, as crenças religiosas podem afetar a decisão de doar um corpo para pesquisa médica. Por exemplo, em alguns países africanos, até mesmo a doação de órgãos é um tabu, e a profanação do corpo é considerada contrária a alguns ensinamentos religiosos.

No Catar, um hospital que importa partes do corpo humano para pesquisa de ponta em ciência médica está em funcionamento há 12 anos.

O Aspetar, especializado em ortopedia, foi inaugurado em 2007 e criou o Programa de Cirurgiões Visitantes como uma pós-graduação para médicos de todo o mundo. Os cirurgiões de lá não usam réplicas de partes do corpo, mas "originais".

Em um processo altamente burocrático que envolve o trabalho conjunto de seis ministérios do governo, partes reais do corpo humano (principalmente ombros, joelhos, tornozelos e troncos) são importadas para Aspetar, sendo a maior parte proveniente dos EUA.

O cadáver imortal

Embora os detalhes macabros do Biological Research Centre, no Arizona, tenham chamado a atenção para a indústria de doação de corpos, a prática em si é considerada de valor inestimável para a compreensão do corpo humano.

Um dos casos mais notáveis ​​é o de Susan Potter. Em 2015, a idosa de Denver, nos EUA, doou seu corpo ao médico Vic Spitzer, da Universidade do Colorado, para ser usado no Visible Human Project, um programa que transforma cadáveres humanos em espécimes virtuais.

O corpo de Susan foi congelado e cortado em 27 mil tiras finas. Cada seção foi fotografada, e Potter agora é conhecida como um "cadáver imortal", já que as imagens foram virtualmente sobrepostas e transformadas em uma imagem 3D completa do seu corpo.


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