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Variedades

16/09/2017 09:49 Estadão Cultura

Rock in Rio cresce em área física e precisa improvisar atração principal do primeiro dia

Mais do que o peso das atrações dos palcos Mundo e Sunset, o Rock in Rio coloca suas fichas definitivamente no conceito parque de diversões. A nova Cidade do Rock, no mesmo bairro de Jacarepaguá, tem o dobro do tamanho da anterior. A redistribuição dos brinquedos pelo espaço, trazendo a roda-gigante para uma área mais central, e a estreia da área dos games ampliaram as dimensões do que já parecia grandes e criaram uma sensação de Disneylândia pop-rock. Em meio a tanta informação, a música precisa ser muito boa, ou ser feita por alguém de muita mobilização, para deixar de ser coadjuvante.

A primeira tensão, o cancelamento do show de Lady Gaga por causa de uma fibromialgia, obrigou a produção a fazer algo inédito em festivais no Brasil. Puxou o headliner de sábado para sexta também, o Maroon 5. Fãs de Maroon 5 amaram, os de Gaga se deprimiram.

A modelo Gisele Bündchen abriu o primeiro dia de shows do Palco Mundo por volta das 18h45. A modelo entrou para lançar a campanha Belive.earth. “Que energia incrível. Estou realizando um sonho, estar no meu amado País no meu primeiro Rock in Rio. Não se preocupem que eu não vou cantar, vou deixar isso para os profissionais”, brincou a modelo. “Sonho com o dia em que viveremos em harmonia com a mãe Terra”, declarou. “Acredito em um mundo com o respeito e o amor como valores fundamentais. Quero convidar a todos para darem as mãos e nos unirmos em uma corrente de amor. Vamos enviar essa corrente positiva para o mundo.”

Houve até anticlímax, infelizmente. Fernanda Abreu fazia tudo certo, com funk, requebrado e suingue, até que o Palco Mundo abriu suas atividades cortando sua Rio 40 Graus, seu hit mais atemporal. Era para ser o ápice e se tornou uma correria para ver Gisele, que seguia falando. “Vamos dar as mãos para quem está do lado e imaginar que o mundo vai melhorar”, disse a modelo, que chorou na sequência. Depois disso, Ivete Sangalo cantou uma versão de Imagine, de John Lennon. Cantora e Gisele ficaram de mãos dadas e deixaram o Palco Mundo para a queima de fogos que marca o início das atrações principais do festival.

Ivete Sangalo transformou a Cidade do Rock em uma grande micareta do amor. Ela começou com quatro músicas poderosas: O Farol, Festa, Sorte Grande e Abalou. “Quero fazer uma homenagem a alguém muito especial e que já tocou no Rock in Rio. Viva o grande Cazuza!”, disse, antes de uma performance dançante de Pro Dia Nascer Feliz.

Barulho já se ouvia desde a tarde, quando o relógio passava das 17h e uma multidão se reunia na frente de um palco que não era nenhum dos mais procurados – os oficiais são o Sunset e o Mundo. Tudo ocorreu na Arena Itaú, no cantinho da Cidade do Rock.

Ali, diante de uma massa que não havia ainda sido vista no Rock in Rio 2017, essa figura de cabelos longos surgiu. Pabllo Vittar é um furacão. É a ebulição do pop nacional. A drag queen, aliás, foi pedida pelo público do Rock in Rio depois da desistência de Lady Gaga, a headliner da primeira noite.

Um momento involuntariamente politizado aconteceu na apresentação de Fernanda Abreu. Quando falava sobre aquecimento global, irromperam da plateia gritos de “fora, Temer”. “É, vamos tomar conta de nossas florestas”, foi sua resposta.

O indie foi representado pelo encontro de Céu e Boogarins, banda de Goiânia responsável por fazer o mundo prestar atenção na nova cena de rock psicodélico brasileira. Já sem fazer o público sofrer com o calor, Céu e Boogarins aproveitaram para propor uma viagem bem própria. A voz dela, vagarosa, passeia pelas notas como uma tarde de domingo nas canções próprias ou dos Boogarins. Os goianos, por sua vez, entendem o ponto de coexistência entre o experimental e o pop. Propõem uma jornada onírica, em formação que alterna baixo e teclados, sempre com duas guitarras entupidas de distorção.

O Pet Shop Boys, no palco Mundo, era o tipo de banda que nunca parou de produzir música boa, e a performance de Tennant e Chris Lowe segue impressionante sob todos os aspectos: voz incrível, beats criativos, produção visual impecável – a dupla leva com facilidade o tipo de energia desenhada para clubes para o campo aberto.

E na África...

Algo de outro mundo, e que poucos viam, acontecia pela tarde toda na Rock Street, um espaço que acaba se perdendo na poluição visual da Cidade do Rock. Os africanos, trazidos ao Brasil pelo curador Toy Lima, chegavam como se estivessem em um festival só deles, capturando um público que passava por ali e parava curioso, sem saber bem do que se tratava. O espetacular grupo marroquino de Abdeslam Allikawe, chamado Tyous Gnaoua, trazia um som da África do Norte de quebrar as pernas. Eram sete homens descalços vestidos com longas e sedosas batas verde e brancas. O mais velho deles, Allikawe, é uma autoridade na música mundial. Único integrante a tocar um instrumento, sua voz puxava o coro dos homens bailarinos do Marrocos. Um deles sempre ia à frente do palco dançando em agachamentos e sorrisos largos, como fazem povos da ‘África branca’. Tudo ali era história. O instrumento de Allikawe era um legítimo guemberí, um corpo de madeira estreito com um braço e quatro cordas graves que Toy fazia questão de explicar ao ouvido do repórter: “É um bisavô do contrabaixo”. Ali havia um documentário vivo que, dentro do Rock in Rio, parecia menor, quase cenográfico.

A Rock Street, aliás, ganhou território e espaços de respiro. Em frente ao palco, um espelho d’água tentador por virar uma piscina, apesar das placas de proibido mergulhar, criaram ali um dos ambientes mais agradáveis. Depois dos marroquinos, um grupo de refugiados do Congo e de Angola, com vozes e cores lindas, entrou sem deixar cair aquela energia. O Rock in Rio, não por vontade, mas por impossibilidade, não consegue comunicar tudo o que faz com o mesmo destaque. E as atrações da Rock Street, que sozinhas seriam um festival à parte, se tornam quase uma pregação no deserto. Uma perna em São Paulo com algumas delas seria perfeita, em uma noite abraçada pelo Sesc, mas não houve articulação a tempo. Bem, azar de quem não viu.

O show dançante do Maroon 5 encerrou a primeira noite do Rock in Rio em grande estilo. Adam Levine soltou logo de cara uma sequência impactante e que hipnotizou até mesmo o fã mais desatento da banda: Moves Like Jagger, This Love e Harder to Breathe.


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