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23/09/2017 10:39 Exame.com

O silêncio dos norte-coreanos diante do pronunciamento de Kim

De repente, a multidão silencia e prende a respiração, quando o telão exposto no exterior da principal estação de Pyongyang escurece: são 15h no horário local, e o governo fará um anúncio.

Ali há trabalhadores, estudantes de uniforme cinza, famílias que saem da estação de trem com suas malas e mulheres que seguram guarda-chuvas para se proteger do forte sol deste final de verão.

“A fé do revolucionário é imutável, inclusive na morte”. lembra a mensagem escrita sobre um fundo vermelho.

A televisão central coreana é uma das melhores caixas de ressonância para celebrar as obras do líder supremo, como Kim Jong-Un é chamado na República Popular Democrática da Coreia (RPDC), nome oficial da Coreia do Norte.

Nessa sexta-feira, o Rodong Sinmun, órgão oficial do Partido dos trabalhadores no poder, e a agência oficial KCNA, já haviam informado sobre o discurso mordaz de Kim contra Donald Trump, o “senil norte-americano mentalmente trastornado”, após as ameaças do presidente americano na Assembleia Geral da ONU.

Aparece então a apresentadora favorita do regime, a septuagenária Ri Chun-Hee, à qual se recorre para narrar grandes acontecimentos, de testes nucleares a falecimentos na dinastia dos Kim.

Desta vez, não houve anúncio. A apresentadora se limitou a ler a declaração de Kim Jong-Un, com uma foto de fundo do dirigente em seu gabinete no Comitê Central do Partido dos Trabalhadores.

“Trump está louco”

“Um cachorro assustado ladra ainda mais forte”, lê a apresentadora Ri, enquanto aumenta a multidão em frente à estação de trem. O dirigente norte-coreano explica em seu texto que Donald Trump pagará “caro” por ter ameaçado a Coreia do Norte com uma “destruição total”.

Diferente da maioria das declarações na televisão, que se concentram mais nos governos do que em pessoas, essa surpreende por sua condenação direta do presidente norte-americano, chamado de “neófito na política” e de “herege”.

“Trump deixou o mundo nervoso com suas ameaças e com sua chantagem contra todos os países do mundo”, ataca Kim.

“É inapto para exercer o comando supremo de seu país, e tem sido um bandido e um gangster que gosta de brincar com fogo, e não um homem político”, prossegue.

Kim Jong, apesar de ser um dos mais jovens dirigentes do mundo e ter menos da metade da idade de Trump, tem mais experiência política já que dirige a Coreia do Norte há seis anos.

“É como se (Kim) olhasse (para Trump) de cima, explicando-o que não se pode falar assim nas Nações Unidas”, explica John Delury, da Universidade Yonsei em Seul.

Este discurso, para o público de Pyongyang, foi inspirador. Sobretudo porque há uma severa proibição na Coreia do Norte de divulgar publicações estrangeiras. Somente as informações aprovadas pelo regime são autorizadas, e nelas o governo tenta passar a ideia de que o país corre o risco de ser invadido pelos Estados Unidos, o que justificaria o desenvolvimento de um arsenal nuclear para proteger-se.

“É preciso tratar a golpes esse cachorro louco” disse sobre Trump Kim Kwang-Hyok, um operário da construção, que fecha o punho após o fim da transmissão.

Os norte-coreanos de Pyongyang compartilham sistematicamente suas opiniões com o regime, quando falam com a imprensa estrangeira.

Ryu Ri Hwa, de 74 anos, diz sentir uma “raiva indescritível”.

“Temos a arma nuclear, e por isso estou confiante. Podemos ganhar 100 vezes, 1.000 vezes a guerra enquanto tivermos nosso líder”, garante. “Trump é um louco, um louco que não sabe nada”.


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