A conclusão do acordo comercial entre o Mercosul e a União Europeia, após 26 anos de negociações e já alvo de judicialização, reacendeu discussões antigas no setor lácteo brasileiro. A abertura de cotas para a entrada de produtos europeus, como queijos e leite em pó, gerou apreensão entre produtores, mas especialistas apontam que o impacto do tratado vai muito além da concorrência externa.
Na avaliação de técnicos e representantes da indústria, o acordo expõe gargalos históricos da cadeia do leite no Brasil, como custos elevados, margens reduzidas, instabilidade de preços, deficiência de dados confiáveis e baixa eficiência produtiva e industrial. Para eles, esses fatores pesam mais sobre a competitividade do que as tarifas reduzidas para produtos importados.
Pesquisas conduzidas pela Embrapa indicam que a principal fragilidade do setor está na gestão. A avaliação é que tanto na produção primária quanto nos laticínios há falhas que elevam custos e tornam o produto final menos competitivo. O desafio, segundo especialistas, é reconhecer essas limitações e avançar em eficiência, controle de despesas e profissionalização.
Outro ponto sensível envolve os subsídios concedidos aos produtores europeus. A existência de transferências diretas e incentivos a insumos é vista como um fator que precisa ser melhor estudado. Caso esses mecanismos sejam confirmados, o Brasil poderia discutir medidas compensatórias. Ainda assim, a percepção predominante é de que há tempo para ajustes internos antes que o acordo produza efeitos mais profundos no mercado.
Entre produtores, há receio de que a previsibilidade das importações seja usada como argumento para pressionar o preço pago pelo leite no campo. No entanto, analistas avaliam que essa leitura simplifica a dinâmica da cadeia. O maior poder de barganha estaria concentrado no varejo e nas indústrias que utilizam leite como insumo para outros alimentos, e não apenas nos laticínios.
A formação do preço do leite no Brasil também reflete diretamente o equilíbrio entre oferta e demanda. Em períodos de escassez, como ocorreu em 2022, quando houve forte retração da produção, os preços sobem. Já em cenários de maior oferta, influenciados pelo crescimento produtivo e pelas importações, a tendência é de queda.
A elevada volatilidade, segundo especialistas, é agravada pela ausência de informações consistentes ao longo da cadeia. A falta de dados confiáveis sobre produção e processamento gera incerteza e dificulta o planejamento de médio prazo por produtores, indústrias e investidores. A organização e a transparência dessas informações são apontadas como essenciais para reduzir riscos e tornar o mercado mais previsível.
Do lado da indústria, a avaliação é de que o acordo não deve alterar de forma relevante a oferta de lácteos no curto e médio prazo. Isso porque os principais fornecedores externos de leite em pó para o Brasil já são países vizinhos, com custos mais baixos, logística favorável e moedas mais competitivas. Nesse contexto, a entrada de produtos europeus não representaria uma mudança estrutural imediata.
Por outro lado, o tratado pode abrir espaço para nichos específicos de maior valor agregado. A exportação de commodities lácteas para a Europa é vista como pouco viável, mas produtos diferenciados — como itens proteicos — podem encontrar oportunidades, desde que atendam a exigências rigorosas.
As barreiras sanitárias, ambientais e de sustentabilidade também entram no radar. A expectativa é de que o mercado europeu reforce critérios técnicos e de ESG, o que exigirá investimentos em rastreabilidade, certificações e adequação sanitária. Estados do Sul do Brasil aparecem em vantagem nesse aspecto, por já terem avançado nesses requisitos ao longo da última década.
No fim, o consenso entre pesquisa e indústria é que o acordo Mercosul–UE não cria, por si só, uma crise para o leite brasileiro. Ele escancara fragilidades antigas e reforça a necessidade de ganhos de eficiência, melhor gestão, organização de dados e estratégias voltadas à agregação de valor.
Para o produtor rural, o recado é direto: mais do que temer a concorrência europeia, será fundamental olhar para dentro da porteira, profissionalizar a gestão e se preparar para um mercado cada vez mais exigente, competitivo e volátil.





































































