Juara – Mato Grosso

17 de abril de 2026 01:27

Brasil registra alta de feminicídios e Mato Grosso aparece entre estados com medidas protetivas mesmo nos casos de morte

O Brasil segue enfrentando uma realidade alarmante no enfrentamento à violência de gênero. Levantamento do Fórum Brasileiro de Segurança Pública divulgado nesta quarta-feira (4/3) aponta que 8 em cada 10 casos de feminicídio no país são cometidos por parceiros ou ex-companheiros — o que evidencia que o maior risco para muitas mulheres ainda está dentro de casa.

Em 2025, foram registradas 1.568 vítimas de feminicídio, um aumento de 4,7% em relação ao ano anterior. Os dados revelam também um recorte racial preocupante: 62,6% das vítimas são mulheres negras, o que escancara a desigualdade estrutural e a maior vulnerabilidade socioeconômica enfrentada por essa parcela da população, muitas vezes com menor acesso a redes de proteção e políticas públicas eficazes.

A maioria dos crimes ocorre dentro da própria residência (66,3%), reforçando o caráter doméstico dessa violência. Em 48,7% dos casos, são utilizados objetos comuns, como facas ou machados — instrumentos ao alcance cotidiano, o que demonstra como o feminicídio é, frequentemente, o desfecho extremo de ciclos contínuos de violência.

Os números reforçam a urgência de fortalecer políticas de prevenção, ampliar a rede de acolhimento e proteção e garantir a efetiva aplicação das leis já existentes. Desde a criação da Lei do Feminicídio, em 2015, ao menos 13.703 mulheres foram assassinadas em razão da condição de sexo feminino. O combate ao feminicídio exige ação coordenada do Estado, investimento contínuo e compromisso permanente com a vida das mulheres brasileiras.

Violência íntima e doméstica

A análise de 5.729 casos entre 2021 e 2024 aponta um padrão recorrente:

  • 59,4% das vítimas foram mortas pelo companheiro;

  • 21,3% pelo ex-companheiro;

  • 10,2% por outros familiares;

  • Apenas 4,9% dos autores eram desconhecidos.

Em 97,3% dos casos, o agressor era homem.

A residência da vítima foi o local do crime em 66,3% das ocorrências, seguida pela via pública (19,2%).
Quanto aos meios utilizados:

  • Arma branca: 48,7%;

  • Arma de fogo: 25,2%.

Os dados reforçam que o feminicídio, majoritariamente, acontece dentro de casa e no contexto de relações íntimas.

Perfil das vítimas

  • 62,6% eram mulheres negras;

  • 36,8% eram brancas;

  • 50% tinham entre 30 e 49 anos;

  • 15,5% tinham 50 anos ou mais;

  • 5,1% eram menores de 18 anos.

O recorte racial e etário evidencia desigualdades estruturais que atravessam gênero, raça e território.

Pequenos municípios concentram maior risco

Em 2024, municípios com até 100 mil habitantes registraram taxa de 1,7 feminicídio por 100 mil mulheres — acima da média nacional (1,4).
Nas cidades com até 20 mil habitantes, a taxa chegou a 1,8, 28,5% superior à média do país.

Embora 41% das brasileiras vivam em municípios com até 100 mil habitantes, essas cidades concentraram 50% dos feminicídios.

A estrutura de proteção é mais limitada nesses locais:

  • Apenas 5% possuem Delegacia Especializada de Atendimento à Mulher;

  • 3% contam com Casa Abrigo;

  • 27,1% têm ao menos um serviço especializado da rede de proteção.

Na prática, isso significa que mulheres que vivem no interior do país frequentemente não encontram, em seu próprio município, serviços especializados capazes de acolher denúncias, avaliar o risco ou oferecer proteção.

Mas a ausência de equipamentos é apenas parte do problema. Em cidades menores, buscar ajuda pode ser socialmente mais difícil. A proximidade entre moradores dificulta o sigilo, aumenta o medo de exposição e reforça pressões familiares e comunitárias para que a mulher permaneça no relacionamento violento. Denunciar pode significar enfrentar não apenas o agressor, mas também o julgamento social. Muitas trajetórias de violência permanecem invisíveis até que seja tarde demais.

Medidas protetivas e falhas na prevenção

Em 16 unidades da federação analisadas, 13,1% das vítimas tinham Medida Protetiva de Urgência vigente no momento do crime. Estados como Acre (25%), Mato Grosso (22,2%) e São Paulo (21,7% na capital) apresentaram percentuais acima da média.

Os números indicam que, embora haja avanços legais — especialmente a partir da Lei Maria da Penha — ainda existem falhas na efetividade das políticas públicas, sobretudo na fiscalização e no cumprimento das medidas protetivas.

Esse cenário revela um descompasso preocupante entre onde estão os maiores riscos e onde se concentram os recursos institucionais para enfrentá-los. Enquanto as políticas de combate à violência contra a mulher se estruturaram principalmente nas grandes cidades, uma parte significativa das brasileiras vive em territórios onde essa rede praticamente não existe.

Enfrentar o feminicídio no Brasil exige mais do que leis severas ou aumento de penas. Exige capilaridade territorial, monitoramento eficaz das medidas protetivas, investimento contínuo e compromisso institucional permanente. Se o país avançou na construção do marco legal, o desafio da próxima década será garantir que a proteção prevista na Lei Maria da Penha chegue a todas as mulheres, independentemente do CEP em que vivem.

Porque nenhuma política pública pode ser considerada efetiva enquanto metade das vítimas estiver morrendo justamente onde o Estado menos consegue chegar.

Fonte: Fórum Brasileiro de Segurança Pública.

Fonte: Fonte: Fórum Brasileiro de Segurança Pública.

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